domingo, 31 de Janeiro de 2010

" A vida é tão cheia de tormentos e atribulações, que é preciso ou submetê-la pela razão, ou abandoná-la"

Schopenhauer
(Citando Antístenes)

domingo, 27 de Dezembro de 2009

A Língua Portuguesa, por Caetano Veloso



"Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção/
Está provado que só é possível filosofar em alemão"

sábado, 19 de Dezembro de 2009

Sismo


«É possível que os sismos ocorram como resultado do vento situado no interior da Terra, de modo que as pequenas massas desta que estão em contacto com ele se deslocam sucessivamente, provocando neste caso um estremecimento. Este vento ou provém do exterior ou é produzido pelo desabamento dos alicerces do solo no interior das cavernas subterrâneas, fazendo deslocar o ar aí encerrado. Os sismos também podem dever-se à propagação do movimento causado pela queda de vários blocos subterrâneos e à sua repercussão, quando colide com partes mais densas e mais sólidas da Terra. Todos estes movimentos podem, porém, ocorrer de muitos outros modos.»

Epicuro
Carta a Pítocles

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Anos 00: a década perdida?

A revista Rolling Stone deste mês faz um extenso balanço da década de zero. O conteúdo desta década está perto (um pouco exageradamente) do nome que tem: zero. O editorial deste mês decidiu chamar-lhe «a década das oportunidades perdidas». Será assim mesmo? Vamos reflectir.

Internet: Esta invenção prometia uma década dourada de um fluxo rápido de informação. A consequência mais óbvia prevista em 2000 seria um enriquecimento cultural das pessoas, já que era uma forma de informação gratuita e quase acessível a todos, mesmo um cidadão de uma pequena aldeia poderia finalmente almejar ter acesso ao conhecimento quase tanto como um vizinho da Biblioteca Nacional. O que aconteceu na década de zero? Surgiu a Web 2.0 vocacionando a net para conteúdos mais visuais e menos informativos. As pessoas substituem a realidade pela Internet: redes sociais, conversas online, ver vídeos da vizinha no YouTube... A Internet serviu ao aldeão para ter acesso a um mundo que supõe ser o Centro nevrálgico da Humanidade: não se interessa em melhorar através do conhecimento a sua vida quotidiana mas sim saber o que se passa longe de si. A sensação de se ser complexado por se ser provinciano nunca foi tão grande.

Como pontos positivos a Internet permitiu o jornalismo democrático, embora não seja agradável ver a morte de soldados presos ou o enforcamento de Saddam Hussein é positivo saber o que se passa no Irão ou assistir à força de um Tsunami sem recorrer à estratégia de cassetes escondidas como foi no massacre de Santa Cruz ou Tiannamen.

Telemóveis: Finalmente se tivermos uma avaria no meio do mato às duas da manhã pudemos pedir auxilio com alguma facilidade. Em contrapartida, transportámos o nosso escritório para o nosso bolso e a desculpa de não estarmos acessíveis deixou quase de existir. Os patrões já telefonam aos fins-de-semana a pedir para adiantar trabalho. E ainda: o que aconteceu aos desencontros?

Privacidade: É a década da exploração da privacidade devido a muitos meios tecnológicos mais evoluídos. Começámos pelo programa Big Brother e continuamos em agressões em salas de aula ou podemos assistir pelo YouTube à morte de um determinado fulano na estrada. Não deveria a privacidade ser um direito?

Filmes e música: A possibilidade de fazer downloads na net tirou-nos o prazer de coisas tão simples como ir ao cinema como evento social ou mexer com prazer na capa de um disco enquanto o ouvimos. Se é verdade que continua a haver grandes produções cinematográficas, imagine-se quanto seria o orçamento de «2012» se houvesse pessoas a vê-lo nos cinemas. Os filmes e música tendem a voltar a meios mais tradicionais e amadores com algum experimentalismo à mistura (Godard decerto aprovaria esta reacção anti-capitalista). No entanto, nunca foram também a música ou os filmes tão pré-formatados para um público tão standard. Que é feito do cinema italiano ou da música vanguarda?

Gestão de serviços públicos: Nunca o serviço público foi alvo de tamanha operação de gestão como nesta década. A arte de ser-se professor ou médico tende a desaparecer em prol de grelhas avaliativas e de diagnóstico bem justificadas, de preferência com números superiores a dez. Aplicar um principio de objectivos altos a uma realidade que não pode ser alta leva a uma corrupção dos serviços públicos, que, na impossibilidade de criar uma realidade que não existe se vêm forçados a mentir para agir apressadamente. Acontece no ensino, na saúde, nos tribunais...

Paradoxos geracionais: A visão que basta ser-se criança (algo que nenhum individuo o é por mérito) para se ser o centro do mundo perdura. Como a criança é inocente tudo o que diz é verdade pois não está corrompida pela sociedade. Esqueceu-se que uma criança ao não ter ainda uma estrutura moral construída facilmente cometerá erros morais, pois não terá o sentimento de culpabilidade a persegui-la. Os idosos permanecem um traste social: não são bonitos, não conseguem praticar desporto, são chatos e aborrecidos e mexem-se devagar. A cultura que os idosos transportam e que herdaram ao longo dos séculos continua a não ser transmitidas aos jovens, e assim perde-se sabedoras antigas que podiam enriquecer a nossa cultura (a gastronomia é apenas um exemplo). Os jovens continuam com o sentimento de protecção dos pais, a tudo são imunes. Os pais tem medo de castigá-los pois podem perder um amigo e assim acedem a todas as suas vontades sem se aperceberam que estão a criar pessoas sem a mínima noção do que é um limite.

Individualismo: Muitos direitos tem sido alcançados, mas e deveres? Alguém fala destes? Que o direito é uma vantagem não haja dúvida, não se apercebe contudo que o direito tem um interesse individual. Os deveres referindo-se ao colectivo são descartadas e ninguém quer referi-los por implicarem trabalho sem retorno imediato. A década de 00 foi de avanço progressivo do individualismo.

Anos 00: uma década perdida?

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Classificados

Vende-se exemplar autografado de «A república»

Primeira edição de «A república» com dedicatória do autor. Claro que a obra está muito usada (sublinhados, páginas dobradas nas pontas, sem contracapas, etc. ), mas, dada a sua idade, está em bom estado geral.

Localidade: Chicago

Qualquer interessado contactar aqui: http://www.craigslist.org/about/best/chi/748263604.html


Nota: a Craiglist é uma agência de classificados da Internet que se orgulha de auto-denominar como cem por cento livre. Este caso de «A república» é um entre outros que servem para demonstrar a falta de sentido a que pode chegar o uso da internet anónima.

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

A solidão é uma coisa má?



Uma das coisas que marcou a História do Homem no séc. XX e hoje também, foi a abordagem psicológica do mesmo. Inicialmente cépticos em relação ao assunto, a psicologia não foi vista com seriedade: uma abordagem cientifica a algo que não se vê - a mente humana - não era visto como possível. Hoje, ao contrário desse cepticismo inicial a psicologia está mais que em voga e com vontade de mandar nos assuntos da mente humana. Com tanta vontade que muitas vezes abandona, sem se aperceber, métodos científicos e objectivos, para embarcar numa divagação bonita sobre o ser humano.

Vem isto a propósito do ensino da Psicologia, que às vezes não se sabe o que é o bonito e o que é o verdadeiro. Estes pensamentos ocorreram-me ao ler um texto sobre a solidão de Wencesleau de Moraes. Escrito em 1919, Wenceslau sente a solidão de ser um Português a viver no Japão e desenvolve um conto sobre a temática. Uma apologia à solidão parece uma história de loucos nesta altura em que alguns comportamentos são catalogados como patológicos, por isso se torna tão necessário ler uma literatura mais corajosa e sobretudo genuína num mundo em que qualquer saída cultural é controlada por estudos de opinião. Leia então:


«Ainda o homem solitário», por Wenceslau de Moraes

"O homem solitário, em comparação com os outros homens, vê melhor, ouve melhor, tem o dom do olfacto mais sensível, tem o dom do gosto mais subtil, palpa melhor; isto é, as suas aptidões sensoriais afinam, aguçam-se, desenvolvem-se; falo por experiência própria. E porquê? Talvez - é sempre bom dizer talvez - porque os seus dotes emotivos, expandindo-se pouco, não se gastam, acumulam em reservas energias de sentir que, quando chamadas a exercer-se, acusam dobrada intensidade. Um ligeiro perfume, por exemplo, um leve detalhe da paisagem, por exemplo, que escapam aos outros homens, não lhes escapam.

No homem solitário, o amor pela criação é mais intenso, como há pouco referi. Daqui, a sua estima, por vezes exaltada, pelos animais, pelas árvores, pelas flores, direi mesmo pelas pedras. (...) No seu convívio, o homem solitário descobre neles subtilezas de percepção, engenhosos processos de transmitir o pensamento, que outros homens não descobrem; por este modo, os meios de comunicação afectiva entre o individuo humano e os bichos excedem muito o limite máximo.

O homem solitário é , em via de regra, um pobre; e, quando o não fosse, não seria por certo o amor ao luxo que viria exercitar-lhe a fantasia."

Tokushima, Dezembro de 1919




Compare agora o texto anterior com estas tiradas bonitas da Psicologia ensinadas hoje em dia ao 12º ano:

"O individuo é essencialmente social. É-o, não em consequência de contigências exteriores, mas em consequência de uma necessidade íntima. É-o genéticamente (1)" -
Henri Wallon

"O caso das crianças selvagens mostra que o ser humano só consegue completar a sua natureza (2) no convívio com os outros"

"É na interacção social que o homem se torna humano (3), actualizando os caracteres que o definem como tal"

" A sociabilidade é uma necessidade radical pois só na interacção com os outros é que adquirimos condutas capazes de compensar a indigência biológica da espécie (4)"


Retirado do Manual de Psicologia B, edições ASA, págs. 98, 99 e 108.

A alguns destes dogmas acima expostos gostaria de fazer as seguintes perguntas:

(1) Como se sabe que o individuo é genéticamente social?

(2) O que significa "um individuo completar a sua natureza"?

(3) O que é tornar-se humano?

(4) Já viram algum individuo sem estar num estado social para poderem afirmar isso?

sábado, 5 de Dezembro de 2009

Indices: Somos pouco individualistas mas temos medo da incerteza

A Cleary Cultural publica uma série de indices do nível cultural incidentes em vários países. Demonstra-se aqui dois destes: o indice de individualismo e o indice de evitar a incerteza.

I - Individualismo

Neste indice três países anglo-saxónicos surgem no topo como os mais individualistas do mundo, o primeiro lugar cabe aos Estados Unidos com um indice de 91. O indice de Portugal é de 27, ao passo que o último país é a Guatemala com apenas 6.

Fonte: http://www.clearlycultural.com/geert-hofstede-cultural-dimensions/individualism/

II - Evitar a incerteza

Este indice é definido pela capacidade de um povo encarar modos adversos e sobretudo incertos. Mede a tolerância para com o desconhecido e a sua aproximação de aceitação ou rejeição com situações de finalidade incógnita. Em culturas de medo perante o incerto exite a tendência de se criarem leis mais rigidas, mais controladoras, além de medidas de segurança mais rigorosas. A nível religioso e filosófico há a tendência de se criar uma Verdade Única a fim de se evitar confrontos com verdades alternativas.



Portugal ocupa neste indice o segundo lugar com 104 pontos. A Espanha, por exemplo, tem 86. O último país da tabela é a Singapura com 8 pontos.

Fonte: http://www.clearlycultural.com/geert-hofstede-cultural-dimensions/uncertainty-avoidance-index/

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

O Paradoxo do Altruísmo por Charlie Brown




- "Estou intrigada com esse teu ponto de vista acerca do sentido da vida, Charlie Brown. Tu dizes que fomos postos no mundo para fazer o bem aos outros."

- "É isso mesmo!"

- "Então porque foram os outros postos aqui?"

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Wittgenstein Design

Este puxador de porta data de 1927 e é de autoria do filósofo Wittgenstein por altura da construção da casa de sua irmã em Viena. É apreciado hoje em dia pelo amantes da Bahaus devido à sua elegância prática e finura.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Liberdade: as 7 perguntas de Churchill


Em período inter-eleitoral convém recordar as 7 perguntas que Winston Churchill fez acerca da Europa de 1944 a propósito de saber se existia ou não Liberdade nos Estados.


Existe liberdade de expressão de opiniões e de oposição e crítica ao governo que se encontra no poder?

Os cidadãos têm o direito de destituir um governo que considerem censurável e estão previstos meios constitucionais de manifestarem a sua vontade?

Existem tribunais que estão ao abrigo de violência por parte do executivo ou de ameaças de violência popular e sem nenhumas ligações com partidos políticos específicos?

Poderão esses tribunais aplicar leis claras e bem estabelecidas que estão associadas, na mente das pessoas, ao principio geral da dignidade e da justiça?

Há equidade para os pobres e para os ricos, para os cidadãos comuns e para os detentores de cargos públicos?

Existe a garantia de que os direitos dos indivíduos, ressalvadas as suas obrigações para com o Estado, serão mantidos, afirmados e enaltecidos?

Está o simples camponês ou operário, que ganha a vida trabalhando e lutando diariamente para sustentar a sua família, livre de receio de que uma qualquer organização policial sinistra controlada por um partido único, como a Gestapo, criada pelos partidos Nazi e Fascista, lhe bata à porta e o leve para a prisão ou para ser sujeito a maus-tratos, sem um julgamento justo e público?

quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico IX - Valladolid: Os Indígenas tem Alma?


Colégio de São Gregório, Valladolid


Local: Colégio de São Gregório, Valladolid

Anos: 1550 e 1551

Acontecimento: O Conselho das Índias Espanhol reúne-se com a seguinte ordem de trabalhos: qual o estatuto antropológico dos indígenas das Américas?

Intervenientes: Bartolomé de las Casas e Ginés Sepúlveda, mas também Domingo de Soto, Bartolomé de Carranza e Melchor Cano, entre outros.





Em Valladolid encontramos em 2009 o mesmo Colégio Teológico que entra para a história pelas controvérsias ocorridas em 1550 e 1551 e que opuseram dois teólogos influentes da época: Bartolomeu de las Casas e Ginés Sepúlveda.
Ginés Sepúlveda é um autor conhecido da época, com bastantes obras editadas e de conhecimento do público, aristotélico e que usa o Antigo Testamento como base para as suas visões: a construção de um edifício filosófico colonial. Sepúlveda será sempre um defensor da legitimidade dos espanhóis e dos ocidentais na conquista das Américas, o projecto é simples: é preciso dominar os indígenas já que estes não entendem as coisas.
Bartolomeu de las Casas segue um caminho inovador para a época, sendo até considerado percursor dos modernos Direitos Humanos. Segundo Las Casas, os indígenas eram humanos de pleno direito, negando a teoria da servidão natural dos Bárbaros, classifica estes indígenas como estando no quarto lugar dos tipos que há de barbárie: a categoria daqueles que não conhecem Cristo. A estes casos apenas se deve tirar o pecado de seus corações para que depois se convertam a Deus.



Sala do conselho teológico em Valladolid, e, símbolo jesuíta.



Teses de Ginés Sepúlveda:


- Os indígenas são propícios a uma escravatura natural. O facto de serem incapazes de auto-governação torna-os susceptíveis de serem controlados pelo povo espanhol.

- É imperioso impedir o canibalismo e outras condutas anti-naturais que os indígenas possuem.

- É obrigação dos espanhóis salvar futuras vítimas inocentes que seriam sacrificadas por adorar deuses falsos.

- A conquista espanhola justifica-se pelo mandato que Cristo deu aos Apóstolos e o Papa deu ao Rei de Espanha.


Teses de Bartolomeu Las Casas:

- Nenhum rei pode efectuar jurisdição fora do seu país.
- As crueldades que os indígenas fizeram, e que Sepúlveda refere, não são muito diferentes daquelas que também são ou já foram praticadas pelos Europeus no Velho Continente.
- Há que tolerar os ritos pagãos para que possam ser convertidos em fé Cristã.
- Os indígenas são dotados de racionalidade, uma dessas provas é o alto nível arquitectónico que alcançaram.
- Todos os Homens estão inclinados a honrar a Deus, com o melhor sacrificio que lhe podem oferecer (Tese inspirada em São Tomás de Aquino).
- Não existe canibalismo nos indígenas, mas sim oferendas. A oferenda é um Direito Natural de qualquer povo religioso. Todos os Homens pensam igual no que diz respeito ao Direito Natural, mas diferem nas leis e instituições.

Em 1551 e depois de dois anos de debate, Domingo de Soto elabora um resumo das discussões. O resultado final é inconclusivo, não há vencedores ou vencidos. Sabes-se que este Conselho acaba por decretar o fim das conquistas e a ilicitude da escravidão dos Indíos, mas tal não veio a acontecer de forma factual nos anos próximos. Las Casas chama a atenção para isso, tenta editar cópias piratas com os seus argumentos, mas a iluminação de consciências demorou...

Igreja de São Gregório

Este Colégio pode ainda hoje ser visitado, embora não totalmente. Algumas partes foram destruídas e outras alvo de modificações notantes. As obras de restauro actualmente em curso permitem visitar a Igreja e o Conselho dos Teólogos, já os dormitórios por exemplo estão encerrados, entre outros espaços. Em compensação o visitante tem direito a entrada gratuita. Vale a pena a visita já bem próxima de Portugal.

Com este último ponto acabo a minha visita e estes 9 capítulos de turismo filosófico a locais que me pareceram relevantes. 6500 km ficaram para trás, as planícies de Salamanca e Ciudad Rodrigo cheiram a Portugal... a caminho chego.

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico VIII - «Uma nova natureza, um outro mundo»*

* J. Epstein referindo-se ao cinema,
Bonjour Cinéma (1921)




A criação do cinema, invenção atribuível a várias personalidade dedicadas à duplicação da realidade, tem um cunho especial na cidade francesa de Lyon. Foi aqui que os irmãos Lumiére criaram a máquina que iria revolucionar o mundo, projectando imagens numa velocidade tão elevada que fazia parecer que estas estavam de facto em movimento.


É sabido que esta invenção de um imaginário com suporte tecnológico não se ficou a dever unicamente a estes irmãos: na verdade o primeiro filme nem é de suas autorias. Por várias razões contudo, a patente do cinema é aplicada aos Lumiére. Muito menos o são também, pioneiros da duplicação - a fotografia era já uma realidade há muitos anos, contudo, a velocidade com que estes colocaram estas imagens a passar, tornou a visão da realidade mais dinâmica e mais perto do real.


Imagine o leitor o que seria viver num determinado local e apenas contar com a visão que presenciava na sua frente em comparação com ver imagens a passar à sua frente de sitíos muito diferentes dali. Os Lumiére fizeram isso... criaram a primeira equipa de realizadores que enviaram para várias partes do mundo no intuito de filmar, e apenas filmar, o que por lá se passava num registo quase documentário. O primeiro confronto no cinema entre realidade e imaginação é de origem francesa. Se os Lumiére tinham fé na sua invenção que com a sua objectiva iriam mostrar um mundo objectivo, Mélies é o primeiro a partir para a ficção, e a defender que a função da objectiva é a subjectividade.

Filhos de uma família abastada, os Lumiére preparavam uma invenção que poderia trazer o mundo inteiro, tal como era, para junto de qualquer um, onde quer que tivesse. A este facto acompanha o fenómeno da duplicação, isto é, a realidade tem possibilidade de ser reproduzida, os momentos podem ficar gravados e serem visionados já depois de terem exisitido. Começa uma série modificações sócio-psicológicas que irão marcar o Séc. XX.


Casa-Museu dos Irmãos Lumiére. Nas traseiras o jardim onde filmaram-se pela primeira vez a regar as plantas.



À semelhança de hoje em dia, a reprodução da realidade foi muitas vezes tomada como a verdadeira realidade, não conseguindo o espectador discernir a cópia do original, facto disto estão os acontecimentos ocorridos durante o visionamento do filme "L'arrivé d'un train à la Ciotat", que pode ser visionado em baixo.




Segundo relatos da época, algumas pessoas sentadas do lado esquerdo do ecrã entraram em pânico, pensando que o comboio ia sair da tela. Há teses a desmentirem este acontecimento, no entanto, o facto de esta estória existir já revela um novo sentimento em relação ao cinema e sua relação com a realidade.


Este jogo entre real e o seu duplo estaria ainda apenas no ínicio, seria preciso ver o futuro onde a duplicação ganha pretensão do real, substituindo-o, e, uma vez ganho o estatuto de realidade, começa a transformá-la em mito e subversão objectiva. Com jogos de tempo e espaço, como um porco que entra numa máquina de onde saem constantemente salsichas, que em rewind faz o público assistir atónico a umas salsichas que se transformam num porco, e, com recurso a takes, depressa estamos em Nova Iorque como na Indochina num jogo rápido e impossível no formato que a realidade em que vivemos tem.

Videos dos Irmãos Lumiére: A Indochina surge em França da forma mais cruel e realista possível no Séc. XIX: colonas brancas francesas dão comida às populações locais como se de pombos tratassem. Um olhar sobre o colonialismo francês sem filtros.

Irmãos Lumiére: Nova Iorque em 1896

Esta nova forma de publicação de sonhos, mas também de reproduções da realidade faz merecer uma visita a Lyon e à casa dos irmãos Lumiére, agora tranformada em Museu. Está aberta de Terça a Domingo, das 11h00 às 18h00 e os preços rondam sensívelmente 5 euros. Na parte de trás da casa encontramos imediatamente a fábrica mais famosa do cinema talvez. Trata-se do local onde foi filmado o primeiro filme, afirmação não de todo rigorosa, mas assim ficou para a tradição. O filme é simples e cruelmente realista, como os Irmãos Lumiére gostavam e defendiam. Infelizmente um incêndio danificou a quase totalidade da fábrica e o processo da sua musealização não foi do melhor gosto, mesmo assim vale a pena a visita.

Fábrica onde foi filmado o "primeiro" filme da História do Cinema







Saída dos operários de uma fábrica, filme de 1895 e o mesmo local em 2009.


"Basta às vezes um tudo-nada de devaneio, de imaginação, de antecipação, para que a emocionante imagem cinematográfica se veja súbitamente exaltada às dimensões míticas do universo dos duplos e da morte. Consideremos o cinema futuro imaginado pela ficção científica. Vemos desenhar-se o mito último da cinematografia, que é, ao mesmo tempo, o seu mito original: o cinema total, que catapulta para um futuro insondável o que germina no próprio núcleo da imagem, revela-lhe os poderes latentes"

Edgar Morin

in "O Cinema ou o Homem imaginário"

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico VII - (A Universidade de) Freiburg



Freiburg im Breisgau, Alemanha, tem uma posição geográfica privilegiada: a poucos quilómetros encontramos a França ou a Suiça, mas também grandes lagos e florestas. O único encanto de Freiburg não reside contudo apenas nos seus vizinhos: a cidade vive por si só: tem personalidade, é carismática e uma história bastante invejável.



É impossível falar em Freiburg sem se falar na sua notável Universidade, neste sentido, Freiburg é uma verdadeira cidade-universitária. Cruzam-se nas ruas gente de diferentes nacionalidades com os seus livros na mão, cadernos, ipods. Uma geração jovem sente-se atraída pelo andar de bicicleta (há uns anos diríamos que estávamos em Pequim), não fosse esta cidade uma das mais emblemáticas na luta contra o aquecimento global. Os parquímetros proliferam, praticamente é impossível estacionar sem pagar, e os preços não são convidativos.



Estátuas de Homero e Aristóteles na entrada da Universidade de Freiburg. Na parte lateral da estátua de Aristóteles lê-se «Todos os Homens por natureza desejam saber»

O edificio da Universidade onde é leccionado filosofia é também um corpo principal na cidade. Embora fundada em 1457, este belo edificio foi construido já em 1911 o que não lhe tira o charme. "Die Wahrheit wird euch frei machen" - "A verdade tornar-te-á feliz" é a inscrição que encontramos na fachada também embelezado pelas estátuas de Aristóteles e Homero.



Freiburg pode orgulhar-se de ter 18 prémios Nobel a si associados. Foi também a primeira Universidade alemã a aceitar uma estudante feminina, em 1900. Nos primeiros anos do séc. XX por aqui andou Husserl, sendo um marco na ideia da fenomenologia, simultaneamente, o neo-liberalismo viria aqui a ter nascimento.



Com a ascensão do Nazismo, a Universidade sofre um saneamento. Tendo como reitor Martin Heidegger, os judeus são daqui expulsos, o que constitui talvez o ponto mais negro da sua história.


À parte pontos negros, a quantidade de nomes que vemos associados é invejável: Max Weber, Leo Strauss, Edith Stein, Herbert Marcuse, Karl Löwith, Emmanuel Lévinas, Karl Jaspers, Martin Heidegger, Edmund Husserl, Annah Harendt, Walter Benjamin, Rudolf Carnap, Erasmo de Roterdão e tantos outros numa lista que não acaba.


É sem dúvida uma referência na Filosofia Alemã e Ocidental, vale a pena a uma visita. E após a Universidade há mais: as ruas, os monumentos, as esplanadas floridas à sua volta. Se a urbe for demasiado para o visitante, opte pela Floresta Negra, mesmo ali ao lado, mais inspirador não pode haver...

segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico VI - A Zurique de Jung

Parte-se de seguida para Zurique à procura de Jung como quem parte para Lisboa à procura de Pessoa. Certas personalidades não se dissociam do seu local de vivência, é válido para Andy Warhol e Nova Iorque, Kant e Königsberg ou Kafka e Praga. Normalmente, os génios em ascensão necessitam de viajar e viver um pouco por todo o lado, a fim de obterem novos estímulos, mas também para dar a conhecer ao mundo os seu esforços. Certas personalidades não tiveram contudo a necessidade de desterros tão prolongados, e, se as suas vidas não se caracterizaram por um cosmopolitismo, as suas condições provincianas em nada pareceram alterar a riqueza que ofereceram ao mundo.

É nestes pensamentos que chegamos a Zurique, terra de onde Carl Jung raramente saiu, não deixando de cultivar uma relação próxima com o resto de mundo.

O tanto de si que Jung ofereceu a Zurique, não encontra no entanto, retorno por parte desta cidade. Zurique não é como Praga monopolizada por Kafka ou Königsberg por Kant: tem tantas personalidades a quem prestar homenagem, que Jung por si só não poderia ser a sua iconografia. Einstein, Lenine, Joyce, Wagner, Mann ou Zuínglio, tudo personagens que viveram em Zurique, muita gente para uma cidade só, cujo peso histórico se faz sentir na arquitectura que a Europa vê chique, mas que corresponde ao peso de toda esta cultura de diferentes quadrantes do conhecimento, e que encanta o local com civilização, mentalidade e intelectualidade transdisciplinar.

Entre as montanhas dos Alpes, o Lago Kusnacht e a Floresta Negra. A poucos quilómetros de vários países: França, Alemanha, Lietchenstein, Áustria ou Itália, a Zurique de difícil acesso não deixou de estar em contacto com diferentes culturas onde ali mesmo tinham o seu ponto de tensão: Catolicismo e Protestantismo, Mundo Latino e Mundo Germânico ou, hoje em dia, União Europeia e Isolacionismo. As condições geográficas de Zurique proporcionaram-lhe ser um ponto de passagem entre estes mundos, e que pelos vistos soube aproveitar bem.

É neste contexto de multi-ideias que a Suíça se construiu, num contexto de incerteza, tão relativa até originar um certo isolamento actual. O país-chocolate com paisagens de conto de fadas constituiu certamente o solo da Filosofia de Jung, tão especulativa, mas tão esteticamente acertada. Não querendo com isto afirmar que Jung produziu obras de artes, mas somente que o seu pensamento aliou a sensibilidade aos pressupostos racionais, e o empirismo a uma metafísica muito sua ( e de outros povos do mundo). Jung foi uma das reacções ao espírito científico, propondo uma terapia analítica mais abrangente. Se o conceito de arquétipo choca com os princípios da psicologia comportamentalista, ou o conceito de sincronicidade com os princípios causais de epistemologia contemporânea, Jung não deixou nunca de ser estudado por quadrantes científicos. A associação de palavras é ainda hoje relevante e a teoria de união de opostos influenciou a teoria molecular de David Bohm.

Lago Kusnacht

Na sua casa à beira do Lago Kusnacht, Jung teorizava sobre o simbolismo da água:

"[os filósofos] dizem que toda a ação e substância da obra nada são além da água; e que o seu tratamento também não ocorre senão na água... E sejam quais forem os nomes que os filósofos tenham dado à sua pedra, eles sempre se referem a essa substância, isto é, à água de que tudo [se origina] e na qual tudo está [contido] , que a tudo rege, na qual são cometidos erros, e na qual se corrigem os próprios erros. Dou-lhe o nome de água "filosofal", não água comum, mas aqua mercurialis"

Carl Jung, Estudos sobre a Psicologia e a Alquimia



Lago Kusnacht


Na Suíça Calvinista imbuída no espírito da predestinação, usava o inconsciente colectivo o I-Ching ou a astrologia para desenvolver o conceito de Destino e da morte, o estado Fénix do Homem. Na Suíça das três línguas, via no Latim inacessível o que o que os indianos viam no Sânscrito: línguas sagradas e de acesso a outros níveis da realidade.


Jung na sua casa em Küsnacht, Zurique

A Zurique da primeira metade do século XX, foi a Zurique da Filosofia de Jung: com belezas naturais místicas, aberta a pensamentos diversos e terreno fértil para actividades terapêuticas. A Zurique de hoje em dia ainda é a Zurique de Jung, maior, mais cimentada, mas com a manutenção do toque aristocrático que permite um certo romantismo. Ainda é um dos destinos preferidos para práticas terapêuticas, sendo a oferta variada e possuindo uma investigação notável neste campo. O consultório de Jung ainda lá permanece, junto ao lago Küsnacht sob a forma de instituto de investigação, com o seu nome.

Turismo Filosófico V - Tolerância e Anti-semitismo




Hohenems é uma pequena localidade austríaca cuja história não pode ser contada sem a presença dos judeus cujo peso social e sobretudo económico se fez verificar durante mais de 300 anos. Chegados em 1617, os judeus foram responsáveis por um notável desenvolvimento da vila, abrindo a primeira casa de café em 1797, o primeiro banco e a primeira companhia de seguros em 1841. O cemitério que ainda hoje existe, data da chegada dos judeus à localidade, tendo sido enterrados ao longo dos tempos neste mesmo cemitério tanto judeus como não-judeus. A História não conta problemas relevantes relacionados com misturas culturais numa localidade com tão pouca população. Os 12% que constituíram no seu máximo a população judaica não fez deste povo algo isolado, pelo contrário, histórias há de casamentos com cristãos. O bairro judaico situa-se mesmo no centro da vila, o que atesta decerto, a incontornabilidade destes na sua História.






Bairro Judaico

Até que chegou 1939... nesse ano Hitler anexa a Áustria e cumpre a sua política de deportação de judeus para campos de concentração. Hohenems não escapou à excepção e a sua população judaica rapidamente decresce para o número de zero. Alguns conseguem escapar à deportação exilando-se, ao que hoje em dia esta pequena vila fala com orgulho de uma "Diáspora de Hohenems". Uma parte significativa desta vila desaparece nestes anos de Guerra, e com isso a problemática de se dividir entre uma tradição de cultura, de afectividade, de sangue e de economia e uma nova ideologia institucional de um Estado que nem sequer é o dos austríacos. A confusão parece não desaparecer nos anos seguintes, sendo o ex-bairro judaico marginalizado com construções arquitectónicas duvidosas e descaracterizantes, chegando a sinagoga a ser convertida em quartel de bombeiros.



Antiga e Nova Sinagoga de Hohenems

A Hohenems de hoje é uma tentativa de reconciliação com o seu passado antes de 1939: o bairro judaico é ponto central do seu turismo e, em 1991, é fundado o Museu Judaico, que cumpre um importante papel na reunião de judeus de Hohenems espalhados pelo mundo assim como o recomeço da vida judaica pós-1945 e "disputas acerca da memória e tabus"



Museu Judaico de Hohenems

A visita ao Bairro Judaico de Hohenems é uma reflexão sobre a relação de uma comunidade com a sua história e das contradições entre uma cultura de hábitos quotidianos estabelecidos e uma cultura institucional autoritária de opressão com foi o Nacional-Socialismo de Hitler.




Bairro judaico



Jean Améry

Jean Améry foi um filósofo com ascendência em Hohenems, embora não tendo lá nascido foi ali que passou a sua infância, e dali era originária toda a sua família. Como muitos judeus de Hohenems tinha uma ascendência misturada, visto que a sua mãe era cristã e o seu pai judeu. O próprio Améry considerava-se austríaco e não judeu, daí não compreender a perseguição que lhe foi feita pelos alemães, obrigando-o a refugiar-se em países como a França ou a Bélgica. É neste último país que é preso e deportado para Auschwitz, sempre na dúvida para com ele próprio se seria judeu ou não. Esta tema assombrará a vida de Jean Améry, de uma educação cristã, com sangue judeu e nascido na Áustria, nunca compreenderá rigorosamente a que cultura pertencia. Esta falta de metafísica foi dura para Améry no campo de concentração, considerava-se um intelectual, e nessa condição tinha tudo a perder contra os seus colegas judeus que encontravam na crença a energia para sobreviver a Auschwitz. No entanto, numa realidade que segundo o próprio nada tinha de interpretativo, o intelectual perdia o seu modus vivendi em confronto com uma imagem quotidiana de horror. É esta experiência que usa para escrever a sua obra "At the mind's limits" onde afirma que as raízes da civilização Ocidental não estão assim tão firmes, apenas são vistas como garantidas. Na segurança do nosso mundo materialista actual não estamos conscientes da força que o Outro pode ser absoluto e pode usar o seu poder absoluto para infligir sofrimento. O Holocausto representa a essência e não um acidente do regime nazi, e a principal herança a ser estudada pelo humanismo. Se entendemos por dignidade o direito a viver com garantias em sociedade, então o III Reich é um exemplo de como essas garantias podem acabar. Salienta contudo, que os crimes do Holocausto não tem qualidade moral: quem o fez apenas o viu como uma objectivação da sua vontade, e não como um evento moral. Aqui Améry desmarca-se das posições habituais judaicas que clamam uma victimização assente na ideia de uma qualidade moral por parte do Outro. Améry crê que o futuro da população judaica deverá ser o desaparecimento da victimização que a torna em objecto, e deverá procurar o seu sujeito-próprio.

Tal como Primo Lévi defende que deve ser o homem a tomar conta da sua própria vida. Sobrevive ao Holocausto e suicida-se em 1978.